24/03/2009

"Fatos" populares recolhidos por Lina Bo Bardi

 

 foto: Luciano Oliveira

 

Foi aberta no último dia 17, no Solar do Ferrão, em Salvador, a mostra "Fragmentos: artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi".

A exposição devolve ao público o acervo de arte popular recolhido pela arquiteta em suas viagens pelo Nordeste do Brasil no fim dos anos 1950 e começo dos 1960. A arquiteta considerava os objetos como "fatos" de cultura, depoimentos sobre o estado pré-artesanal da cultura e da economia brasileira.

Projetada por André Vainer, tem a comunicação visual assinada por Carla Castilho e Lia Assumpção e deve ficar por um bom tempo num dos espaços do Solar.

 foto: Luciano Oliveira

Além do acervo de mais de 800 peças, há uma sala com imagens e textos sobre as mostras lendárias realizadas por Lina.

Fiz os textos da mostra. Reproduzo aqui a apresentação do acervo. Quem passar por Salvador...

 

foto: Luciano Oliveira

"Os objetos expostos aqui são a parte do grande acervo reunido pela arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992) que resistiu ao tempo, sob a guarda de pesquisadores, museólogos e instituições durante mais de 40 anos. A coleção original teria cerca de 2 mil objetos. Ela foi sendo montada durante um período de intensa pesquisa e levantamento antropológico feitos por Lina Bo Bardi em viagens pelo Nordeste do Brasil, no fim dos anos 1950 e início dos anos 1960.

Afastado do público por tão longo tempo, o acervo atual, de mais de 800 objetos, pode agora ser visto, analisado e pesquisado, através desta mostra, não à-toa batizada “Fragmentos”.

O conjunto amplo de ex-votos, santos, objetos de candomblé, bichos e utensílios de madeira, objetos de barro, pilões e peças feitas de material reciclado e de lixo foi recolhido por Lina Bo Bardi em feiras, mercados e lojas de material religioso em várias comunidades, núcleos rurais e cidades dos Estados da Bahia, de Pernambuco e do Ceará.

As viagens e os locais de produção foram mapeados com o auxílio de dois grandes colaboradores da arquiteta naquele período: Livio Xavier, diretor do Museu de Arte da Universidade do Ceará (MAUC), e Francisco Brennand, um dos fundadores do Movimento de Cultura Popular, no Recife, Pernambuco.

Fixada na Bahia entre 1958 e 1964, Lina Bo Bardi participou ativamente do que se chamou posteriormente de modernismo baiano, época de grande efervescência cultural e da vivência real de um projeto de participação popular tanto de instituições ligadas ao governo federal como aos governos regionais e grupos de intelectuais e artistas independentes.

Na Bahia, a Universidade foi pólo aglutinador. No nível regional, a criação da Sudene – Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste-  sinalizava a intenção de atuação objetiva do Estado na economia e na produção populares. Comandada pelo economista Celso Furtado, a Sudene chegou a criar a Artene, que se baseava no levantamento das condições da população rural e urbana ligada à produção de objetos e utensílios com o intuito de financiamento para a capacitação e o aumento do nível de renda.

Os objetos deste acervo foram expostos pela primeira vez na mostra Bahia no Ibirapuera, aberta em 21 de setembro de 1959, durante a 5ª Bienal Internacional de São Paulo, organizada por Lina e por Martim Gonçalves. Foram re-expostos e reinterpretados em grandes mostras como a Exposição Nordeste, que se iniciou em 3 de novembro de 1963, no Solar do Unhão, em Salvador; a exposição A Mão do Povo Brasileiro, de 1969, no Museu de Arte de São Paulo, e a seção dedicada ao “Brasil Manual”, na exposição Design no Brasil, História e Realidade, de 1982, no Sesc Fábrica da Pompéia, em São Paulo.
 
A Exposição Nordeste também viajou e desembarcou em Roma, Itália, em março de 1965, para uma mostra que foi suspensa às vésperas da inauguração pela representação diplomática brasileira, por ordem da ditadura militar do Brasil.

Em todas estas ocasiões, a concepção expositiva de Lina trouxe para o espaço do museu uma espécie de imersão provocada e calculada no ambiente das feiras, casas e armazéns populares. Caixotes de madeira, varais, peças dispostas em profusão, sem identificações particularizadas e sem a distância habitual que permitiria vislumbrar todos os seus volumes afirmavam a ausência de romantismo que caracterizou a visão de Lina Bo Bardi sobre a cultura.

Ausência de romantismo que não significa absolutamente ausência de poética. A profusão de objetos e a justaposição aparentemente caótica tinha o sentido de não particularizar e “elevar” cada objeto do plano cotidiano e sim aludir à própria riqueza do uso e ao depoimento de cultura que cada objeto encerra. A beleza, ligada à simplicidade e ao engenho da resolução dos programas de uso, foi vista e destacada de forma a combater a mistificação folclorizante.

O que se mostrava naquelas exposições e também aqui não é um conjunto de obras de arte. Não são únicos, com individualidade a ser cultuada. Não são tampouco peças de artesanato, segundo a concepção de Lina Bo Bardi. Para a arquiteta, a palavra “artesanato” só fazia sentido no contexto da história pré-industrial européia, sendo indissociável da forma de produção típica das corporações de ofício que tiveram auge no fim da Idade Média.

No Brasil, pensava a arquiteta, apesar da “aparência artesanal”, essa produção era decorrente da miséria da população e não das condições econômicas que gerariam o modelo de produção de um capitalismo tardio. Nas palavras de Lina, estes objetos são “fatos populares, produtos para atender as necessidades da existência, de vidas que se desenvolvem em condições precárias, de miséria”. São “sobrevivências naturais em pequena escala, como herança de ofício”.

Lina considerava-os exemplos de trabalho pré-artesanal.


Como objetos-depoimento da identidade cultural do Nordeste, a arquiteta vislumbrou também seu uso como a base necessária para desenvolver um centro de estudos e trabalho artesanal e uma escola de desenho industrial, que produziria projetos para a indústria.

Nesta escola, haveria troca de experiência entre os estudantes de arquitetura e design e os artesãos. Tratava-se, evidentemente, de um projeto político.

Lina, que chegara ao Brasil em 1946 e se fixara em São Paulo na companhia do marido, Pietro Maria Bardi, teve duas temporadas de trabalho na Bahia. A primeira, entre 1958 e 1964, teve como marcos o projeto do Museu de Arte Moderna, nas instalações provisórias no foyer do Teatro Castro Alves, com um intenso programa de exposições, o projeto do Museu de Arte Popular e o projeto do Solar do Unhão.

Seus projetos do museu-escola e o do fomento ao design brasileiro naquela estrutura foram interrompidos em 1964, quando foi afastada do museu por motivos políticos.

Na segunda temporada de Lina Bo Bardi na Bahia, entre os anos de 1986 e 1990, a arquiteta fez um importante plano de recuperação para o centro histórico de Salvador, em que defendia a preservação da “alma popular” da cidade –a idéia principal era manter a população residente- , a recuperação da Ladeira da Misericórdia, com o bar Coati; o Belvedere da Sé; o projeto Barroquinha; a Casa do Benin; a casa do Olodum e o Teatro Gregório de Mattos.
 

Com projeto do arquiteto André Vainer, colaborador de Lina Bo Bardi, a mostra “Fragmentos” devolve ao público o acervo e revela o olhar e as reflexões agudas da arquiteta, contribuições fundamentais para quem quer pensar o design e a cultura popular brasileira."

 

 


Mostra: Fragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi"
Centro Cultural Solar Ferrão - r. Gregório de Mattos, 45, Pelourinho, Salvador
Visitação: terça a sexta, das 10h às 18h; finais de semana e feriados, das 13h às 17h

Mara Gama às 21h18
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Mara Gama é jornalista com especialização em design.

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