19/08/2010

O engenho de Lelé


Até o dia 19 de setembro, o Museu da Casa Brasileira, em São Paulo, exibe  “A arquitetura de Lelé: fábrica e invenção”, sobre a obra do arquiteto João Filgueiras de Lima.

 

auditório do hospital Sarah Kubitschek no Rio - foto André Wissenbach

Lelé traçou um caminho particular na arquitetura moderna brasileira. Construtor e visionário da prefabricação e da construção em série, teve uma experiência exemplar e única do canteiro de obras como laboratório da construção, na época da formação de Brasília, e partindo dessa experiência criou posteriormente as fábricas de componentes para seus projetos.

Este traço marcante de sua obra já seria digno de atenção especial. Mas as construções de Lelé marcam a história da arquitetura brasileira pelo estudo e a busca do conforto ambiental baseado no aproveitamento das condições locais.

Em uma carta endereçada ao antropólogo Darcy Ribeiro em 1996, Lelé assim descreve sua proposta para uma biblioteca:

"Darcy, Foi assim que concebi uma "casa digna" para guardar seus livros, seu "beijódromo" e tudo o mais que você imaginar.
Lembra um pouco um disco voador ou uma mistura de maloca dos xavantes com a dos kamayanás, que você tanto admira. Sua característica marcante: uma grande cobertura, com 34 m de diâmetro e com um círculo central de 12 m, vazado, revestido de policarbonato transparente com lâminas externas de fibra de vidro, que evitam a transferência de calor para o interior.
Na projeção dessa grande clarabóia, um jardim de água viçoso (com árvores e beija-flores) que se integra aos dois pavimentos do edifício. Para garantir seu conforto interno, imaginei circulação de ar por convexão e forçada por exaustores localizados no topo da cobertura. (...)" Brasília, 1996

Na mostra que está em cartaz até dia 19 de setembro em Sâo Paulo, o visitante é recebido por uma linha do tempo que msotra em fotos e alguns preciosos vídeos momentos marcantes da história da arquitetura brasileira.

Um grande mapa da área urbana de Salvador com os pontos de instalação das passarelas e uma reprodução em modelo trazem para dentro do MCB o índice urbano de Lelé. Maquetes e fotos detalham os projetos da rede Sarah de hospitais  especializados em tratamentos ortopédicos em várias cidades do país e do Centro Construtivo (CTRS). Modelos em miniatura mostram diferentes estruturas dos sheds.

A maquete eletrônica que você vê abaixo, feita pelo estúdio Archimídia, direção de André Wissenbach, mostra o sistema de refrigeração, ventilação e resfriamento dos hospitais, responsável pela qualidade ambiental e espacial que abriga os usuários dos prédios. Aberturas que controlam ventilação e iluminação. Túneis subterrâneos sob o térreo para permtiri a passagem forçada do ar fresco sob pressão dos ventiladores, misturando com o vapor de água produzido por um vaporizador.

 

 
Reproduzo abaixo uma entrevista que fiz e que foi puiblicada pela Folha de S. Paulo com o arquiteto em fevereiro de 2000, época do lançamento o livro "João Filgueiras Lima - Lelé".

 
Pergunta - Participação na Bienal de Veneza, livro sobre sua obra, espaço de destaque na Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo. O Brasil descobriu o arquiteto Lelé?
Lelé - De repente virei alvo, virei notícia. Não estava preparado. A gente tem de aceitar as críticas, mas os elogios quase sempre atrapalham. Prefiro ficar no meu casulo. Sempre fugi disso porque acho que afeta o trabalho.


Pergunta - Como será a exposição em Veneza?
Lelé - Destacamos os trabalhos mais recentes, da Rede Sarah. Vamos fazer novas maquetes, para detalhar aspectos construtivos.


Pergunta - Os hospitais da rede Sarah são mais baratos que os convencionais?
Lelé - Eles são pensados de uma forma diferente. Os hospitais, para ter o nível que os nossos têm, são, em geral, herméticos, com ar condicionado em todos os compartimentos, coisa que não adotamos. Nisso, o nosso hospital é mais barato. Ele é mais caro se você pensar que tem espaços maiores. É difícil comparar. O Sarah de Salvador, equipado, custou US$ 36 milhões. É difícil fazer um hospital de 200 leitos com esse preço. Também temos como vantagem que equipamentos e manutenção são feitos pelo CTRS. Mesas, equipamentos de ortopedia, esquadrias, quase tudo.


Pergunta - Como são exatamente os sistemas de ventilação dos hospitais?
Lelé - O princípio é o seguinte: o conforto, em climas quentes, é você ter ar circulando. Quando a brisa entra em contato com sua pele e você está transpirando um pouquinho, a evaporação produz um rebaixamento de temperatura. Mas não pode ter vento. Só ventilação. Se, além de ventilar esse ar, você, antes de introduzi-lo num ambiente, pulverizar água, ele já entra mais frio. Esse é o controle térmico. O aspecto mais importante para os hospitais, no entanto, é o controle biológico do ar. Se você introduz ar "novo", terá bactérias novas e não agressivas. A ventilação natural é mais prática e barata.


Pergunta - Algumas das características de seus projetos acabaram gerando formas que identificam sua autoria. A prática gerou um estilo?
Lelé - Não chega a ser um estilo. Tudo que eu aplico todo arquiteto sabe. A questão básica é saber porque os outros não aplicam. Não estou criando nada de diferente do que o que a gente aprende na escola. Por exemplo, os sheds de iluminação. É lógico. Vivemos num pais tropical. Se a gente pode estar num ambiente sem iluminação artificial, porque não aproveitar isso? É mais agradável e barato. Qualquer um pode fazer.


Pergunta - Mas, no seu caso, essa preocupação se repete e toma forma.
Lelé - É uma preocupação racionalista. Não é criatividade espontânea. Por que você tem de ficar numa terapia intensiva, cheio de equipamentos e sem contato com o verde e com a luz do dia? Por que devemos transformar esses ambientes em que as pessoas já estão fragilizadas em lugares para ter contato com esses monstrengos tecnológicos que só oprimem? Essa mudança de conceito é um lado humanista que todo mundo tem de ter.


Pergunta - Mas vendo em retrospecto sua obra, a horizontalidade, os sistemas de captação de ar e a iluminação foram sendo resolvidos de uma maneira formal que é sua.
Lelé - É decorrente da prática. É diferente de um Oscar, por exemplo. Tudo nele é criativo. Eu não sou assim, eu não tenho essa chama. Vou fazendo passo a passo. Sou uma pessoa normal. Repito algumas estruturas sem me incomodar. Os arquitetos têm vergonha de repetir. Eu não tenho.


Pergunta - No livro, há um trecho em que o sr. diz que é um "subproduto" de Niemeyer e Lúcio Costa. Qual a sua contribuição para a arquitetura?
Lelé - Não acho que eu tenha. O Oscar é um criador fantástico. O dr. Lúcio mudou a arquitetura do Brasil, o ensino e tudo mais. O que eu fiz? Eu tive a oportunidade de trabalho de atuar na industrialização e talvez com alguma qualidade. Com isso, consegui fazer um trabalho um pouco diferente do comum que se faz.


Pergunta - Poder fazer um canteiro de obras permanente, como o CTRS, e fazer exatamente as peças necessárias para a construção é um privilégio?
Lelé - É. Se eu tenho algum mérito foi ter conseguido os recursos para isso.


Pergunta - O sr. acompanha o processo inteiro e interfere nele. Quando foram criados esses centros?
Lelé - O de Brasília foi criado em 1976 e o de Salvador em 1992. Mas o pior é que depois de construído eu continuo a acompanhar.


Pergunta - Pior?
Lelé - Le Corbusier, que era muito engraçado, dizia: você tem de fazer um projeto, fotografar a obra e nunca mais aparecer, ignorar.


Pergunta - Lúcio Costa seguiu o conselho com Brasília?
Lelé - Pode ser. E isso é o oposto do que eu faço. Fico vendo ao lado, sofrendo, refazendo. Corbusier dizia para nunca mais aparecer. Daí, uma ocasião, num convento que ele tinha feito houve um problema de vazamento. Chovia dentro. Ele dizia: Ah, compra um guarda-chuva! (risos) Ele não queria nem saber. Para você ver até que ponto ele levava isso.


Pergunta - E a experiência dos Ciacs?
Lelé - Fracasso. Considero todas essas experiências fracassadas. Tenho um arrependimento enorme de ter participado. Eu devia ter percebido que não ia dar certo hoje nem consigo reconhecer meus projetos. De vez em quando, em viagem, vejo um. Viro pro outro lado. É claro que me sinto culpado de ter feito uma coisa que deu tão errado.
 

 

Exposição: “A arquitetura de Lelé: fábrica e invenção”

Visitação: até 19 de setembro, de terça a domingo, das 10h às 18h

Local: Museu da Casa Brasileira

Endereço: Av. Faria Lima, 2705 - Jardim Paulistano Tel. 3032-3727

Ingresso: R$ 4,00 - Estudantes: R$ 2,00 – Gratuito domingos e feriados

Visitas orientadas: 3032-2564  agendamento@mcb.org.br

Site: www.mcb.org.br

twitter.com/mcb_org

Estacionamento: de terça a sábado até 30 min. grátis, até 2 horas R$ 8,00, demais horas R$ 2,00. Domingo: preço único de R$ 12,00.

Mara Gama às 18h44

15/08/2010

Primeira fase de inscrições para prêmio do MCB acaba dia 19

 

A 24 edição do Prêmio Design Museu da Casa Brasileira tem inscrições abertas até o dia 19 de agosto.

Mais tradicional e representativo concurso do design brasileiro, o prêmio é dividido em categorias para produtos e objetos em produção e em estágio de mock-up ou de desenvolvimento nas modalidades Mobiliário; Utensílios; Iluminação; Têxteis; Equipamentos Eletroeletrônicos; Equipamentos de Construção; Equipamentos de Transporte); além da produção teórica sobre design de produto, design gráfico, arquitetura, urbanismo e paisagismo: Trabalhos Escritos Publicados e Trabalhos Escritos Não Publicados.


O regulamento está disponível no site do MCB.  A primeira fase que termina dia 19 inclui a inscrição e o pagamento de uma taxa de R$ 60 por produto.

 

Mara Gama às 22h03

Electrolux Lab

 


A Electrolux vai apresentar em setembro, na 100% Design Londres, os oito projetos finalistas do concurso de 2010 de seu design lab, que este ano destacou soluções criativas para moradias compactas. Um júri deve escolher o melhor projeto durante a feira levando em conta design intuitivo, inovação e consumo consciente. O primeiro lugar terá um estágio na Eletrolux e 5 mil euros


Os estudantes foram desafiados a pensar nas atividades domésticas - preparar e guardar comida, lavar roupas e pratos, por exemplo, em uma casa de 2050, quando segundo estimativa incluída no briefing, 74% da população viverá em ambiente urbano.
 

Um dos finalistas é o projeto do americano Matthew Gilbride é um sistema de prateleiras multifunção para cozinhas que serve para cozinhar, guardar e refrigerar em diversas temperaturas. 

 

Veja o vídeo

 

Mara Gama às 21h42

Geração em destaque

"A Boa Arquitetura de uma Geração", livro e exposição itinerante, reúne obras de Aflalo & Gasperini, Botti Rubin, Candido Malta Campos Filho, Carlos Bratke, Decio Tozzi, Dacio Ottoni, Eduardo de Almeida, Lelé, Joâo Walter Tosacno, Joaquim Guedes, Paulo Bruna, Paulo de Mello Bastos, Paulo Mendes da Rocha, Reinaldo Pestana, Roberto Loeb, Ruy Ohtake, Sidonio Porto e Siegbert Zanettini.
Será apresentada na quarta, dia 18, na Faculdade de Arquitetura do Mackenzie (Itambé, 135), em Sâo Paulo.

Mara Gama às 21h11
Veja todos os posts
Perfil

Mara Gama é jornalista com especialização em design.

Perfil